Estudos revelam que antigo cemitério na Pupileira abriga restos de mais de 100 mil escravizados em Salvador

Uma descoberta arqueológica de grande relevância histórica e social veio à tona em Salvador: mais de 100 mil corpos de pessoas escravizadas podem estar enterrados sob o estacionamento da Pupileira, prédio pertencente à Santa Casa de Misericórdia da Bahia. Os resultados do levantamento foram apresentados no último dia 21, em reunião no Ministério Público do Estado da Bahia (MP-BA), e revelam o que especialistas classificam como um dos maiores cemitérios de africanos escravizados do país.

A pesquisa, liderada pela arqueóloga Jeanne Almeida, identificou fragmentos ósseos e materiais humanos no local, confirmando os indícios históricos da existência de um antigo cemitério utilizado para o sepultamento de pessoas escravizadas, indigentes, excomungados, suicidas, prostitutas e criminosos — pessoas marginalizadas e apagadas da história oficial.

“É um tema de profunda relevância para a memória social e coletiva da Bahia e do Brasil. Falamos de séculos de violências e de memórias apagadas, que precisam ser resgatadas”, destacou Jeanne Almeida.

Atualmente, o espaço funciona como estacionamento da Santa Casa, mas o MP-BA deve recomendar a suspensão imediata do uso do local, atendendo à orientação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A medida tem como objetivo garantir a preservação da área como sítio arqueológico de memória sensível.

O promotor de Justiça Alan Cedraz, coordenador do Núcleo de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural (Nudephac), afirmou que o momento exige responsabilidade e escuta social:

“Precisamos romper o ciclo de silenciamento desses grupos e iniciar um processo de reparação histórica, construindo novos caminhos para o local.”

A reunião contou com a presença das promotoras Cristina Seixas e Lívia Sant’Anna Vaz, além de representantes da Santa Casa de Misericórdia, do Iphan, do Ipac, da Fundação Gregório de Mattos, e dos pesquisadores Silvana Olivieri e Samuel Vida, que defendem o reconhecimento oficial do espaço como ‘Sítio Arqueológico Cemitério dos Africanos’.

O levantamento é resultado de um procedimento administrativo instaurado em dezembro de 2024 pelo Nudephac, que firmou termo de cooperação técnica entre o MP-BA, a Santa Casa e o grupo de pesquisadores. As escavações realizadas entre os dias 13 e 23 de maio deste ano trouxeram à luz vestígios que reforçam o valor simbólico e histórico do terreno.

Além do rigor técnico, o trabalho foi marcado por um ato inter-religioso, simbolizando o compromisso de não repetir o apagamento histórico imposto àquelas vidas.

A expectativa agora é que o Centro Nacional de Arqueologia homologue o parecer do Iphan, reconhecendo oficialmente o local como patrimônio protegido. Para os especialistas, o antigo cemitério da Pupileira não é apenas um sítio arqueológico, mas um marco da memória e da reparação histórica da população negra no Brasil.

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