A trajetória de Jimmy Lai, um dos empresários mais influentes da história recente de Hong Kong, passou de símbolo de sucesso capitalista a retrato da repressão política imposta pelo regime chinês. Bilionário do setor de mídia e fundador do jornal Apple Daily, Lai foi condenado por crimes contra a segurança nacional e hoje enfrenta a possibilidade de prisão perpétua, em um julgamento que marcou definitivamente a guinada autoritária no território.
Figura central dos protestos pró-democracia que tomaram as ruas de Hong Kong em 2014 e, sobretudo, em 2019, Lai utilizou seu principal instrumento de poder, a comunicação, para confrontar Pequim. O Apple Daily se transformou em um dos principais veículos de crítica ao Partido Comunista Chinês, amplificando vozes dissidentes e defendendo abertamente valores como liberdade de expressão, Estado de Direito e eleições livres.
A postura teve um custo alto. Após a imposição da Lei de Segurança Nacional, em 2020, o empresário passou a ser alvo direto das autoridades. Preso, perdeu o jornal, fechado após operações policiais, e viu antigos aliados e funcionários também serem detidos. O veredito divulgado em dezembro considerou que Lai teria atuado para mobilizar forças estrangeiras contra o regime chinês, acusação que ele sempre negou.
Durante o julgamento, Lai sustentou que jamais conspirou contra Hong Kong, afirmando apenas defender princípios que, segundo ele, fizeram da cidade um exemplo de prosperidade e liberdade. Ainda assim, o tribunal concluiu que sua atuação política e editorial ultrapassou limites impostos pela nova legislação, reforçando o discurso oficial de que a lei é necessária para garantir “ordem e governança”.
A história pessoal de Lai ajuda a explicar sua oposição ferrenha ao Partido Comunista. Nascido na China continental, ele fugiu ainda criança das perseguições do regime de Mao Tsé-tung e construiu fortuna em Hong Kong, então colônia britânica. Para ele, a cidade representava tudo o que a China não era: livre, aberta ao mercado e com oportunidades ilimitadas.
Convertido ao catolicismo, Lai encontrou na fé um refúgio durante o período de isolamento na prisão. Segundo amigos próximos, passou a dedicar longas horas à oração, demonstrando serenidade mesmo diante da condenação. A família, por sua vez, segue pedindo sua libertação, citando preocupações com a saúde do empresário, hoje com mais de 70 anos.
Para críticos do governo chinês, o caso Jimmy Lai simboliza o fim de uma era em Hong Kong, marcada por pluralidade política e liberdade de imprensa. Para Pequim, trata-se de um exemplo de que a nova ordem não tolera desafios à soberania nacional. Entre essas duas visões opostas, a queda do magnata da mídia se consolida como um dos episódios mais emblemáticos da atual disputa entre democracia e autoritarismo no cenário internacional.
Fonte: Clique aqui
Créditos do autor:
Créditos da imagem: Reprodução/Divulgação
