Sob o lema “América para os americanos”, a Doutrina Monroe atravessou dois séculos, sustentou o imperialismo dos Estados Unidos e segue influenciando decisões que tratam a América Latina como zona de controle direto de Washington
Formulada em 1823, a Doutrina Monroe marcou de forma definitiva a relação dos Estados Unidos com o restante do continente americano. Apresentada oficialmente como um instrumento de defesa da soberania das novas nações independentes da América Latina, a política estabeleceu que qualquer tentativa de colonização ou intervenção europeia nas Américas seria considerada uma ameaça direta à segurança norte-americana.
Na teoria, o princípio parecia equilibrado. Os Estados Unidos se comprometeriam a não intervir nos assuntos internos da Europa, desde que as potências europeias se mantivessem afastadas do continente americano. Na prática, a doutrina inaugurou uma lógica de hegemonia que transformou a América Latina em área de influência exclusiva de Washington.
O slogan “América para os americanos” sintetizou esse pensamento. Embora evocasse a ideia de autogoverno dos países do continente, a interpretação dominante sempre foi a de que caberia aos Estados Unidos definir os rumos políticos, econômicos e militares da região. Ao longo das décadas, a doutrina serviu como justificativa para pressões diplomáticas, intervenções armadas, golpes apoiados externamente e controle econômico disfarçado de cooperação.
O contexto de sua criação ajuda a entender sua aceitação inicial. Após as independências latino-americanas, havia temor real de que Espanha e Portugal tentassem retomar colônias perdidas. Os EUA se apresentaram como fiadores da soberania regional. Com o tempo, porém, o discurso de proteção deu lugar a uma política de dominação aberta.
No início do século XX, essa lógica foi aprofundada com o chamado Corolário Roosevelt. Sob esse entendimento, os Estados Unidos passaram a se arrogar o direito de intervir em países latino-americanos considerados “incompetentes” para manter a ordem interna ou honrar compromissos financeiros. A medida escancarou o caráter intervencionista da doutrina e consolidou o papel dos EUA como polícia do continente.
Desde então, a Doutrina Monroe deixou de ser apenas um enunciado diplomático e se tornou uma ferramenta permanente de poder. Bases militares, sanções econômicas, ingerência política e operações encobertas passaram a ser tratadas como instrumentos legítimos para preservar interesses americanos na região.
Mesmo dois séculos depois, a doutrina segue viva. Em momentos de tensão geopolítica, especialmente quando potências rivais avançam sobre a América Latina, o discurso monroísta ressurge com força. A ideia central permanece a mesma, impedir qualquer influência externa que desafie a supremacia dos Estados Unidos no continente.
O retorno explícito desse pensamento revela que, para Washington, a América Latina continua sendo tratada como quintal estratégico. A Doutrina Monroe, longe de ser um conceito histórico superado, permanece como um dos pilares silenciosos da política externa americana e um lembrete de que, no jogo do poder global, a soberania regional sempre foi relativa aos interesses dos Estados Unidos.
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