Guerra fortalece Putin e sepulta poder dos oligarcas russos

A guerra contra a Ucrânia produziu um paradoxo revelador na Rússia. Enquanto o país registra um número recorde de bilionários, os chamados oligarcas perderam quase toda a capacidade de influenciar decisões políticas. Após 25 anos no poder, Vladimir Putin consolidou um modelo em que riqueza não significa autonomia, mas submissão.

As sanções impostas pelo Ocidente falharam em provocar rebelião entre os super-ricos. Ao contrário, ajudaram o Kremlin a apertar o cerco. Combinando punições exemplares e recompensas seletivas, Putin transformou antigos magnatas independentes em aliados silenciosos, quando não em peças ativas da economia de guerra.

Da influência ao silêncio forçado

O caso do ex-banqueiro Oleg Tinkov tornou-se emblemático. Após classificar a guerra como “loucura”, o fundador do Tinkoff Bank viu o Kremlin agir rapidamente. Executivos foram alertados de que a instituição seria nacionalizada caso os vínculos com ele não fossem rompidos. Em poucos dias, o banco foi vendido por uma fração de seu valor real a um grupo ligado a Vladimir Potanin. O resultado foi devastador: Tinkov perdeu quase US$ 9 bilhões e deixou o país.

O episódio ilustra como o poder mudou de mãos. Nos anos posteriores ao colapso da União Soviética, empresários enriqueceram rapidamente ao assumir ativos estatais e passaram a influenciar diretamente o rumo político do país. Essa elite ganhou o rótulo de oligarquia e chegou a ocupar espaço decisivo nos bastidores do Kremlin.

O fim da era dos oligarcas

A ascensão de Putin marcou o início do declínio desse grupo. O bilionário Boris Berezovsky, que se dizia responsável pela chegada do atual presidente ao poder, mais tarde reconheceu o erro e o descreveu como um líder autoritário. Pouco tempo depois, foi encontrado morto no exílio, no Reino Unido. Para muitos analistas, ali terminou simbolicamente a era da oligarquia russa.

Desde então, o recado ficou claro. Quem desafia o Kremlin perde fortuna, liberdade ou ambos. O destino do magnata do petróleo Mikhail Khodorkovsky, preso por uma década após financiar iniciativas pró-democracia, permanece como alerta permanente aos mais ricos.

Bilionários úteis à guerra

Com a invasão da Ucrânia, o controle se intensificou. Em fevereiro de 2022, horas após ordenar o ataque, Putin reuniu dezenas de bilionários no Kremlin. O clima era de constrangimento e silêncio. Sabia-se que perdas estavam por vir, mas oposição já não era uma opção.

Nos meses seguintes, sanções e desvalorização do rublo reduziram drasticamente a riqueza dessa elite. Ainda assim, a economia de guerra abriu novas oportunidades. Gastos militares impulsionaram o crescimento econômico, beneficiando empresários ligados a setores estratégicos e contratos estatais.

Hoje, boa parte dos bilionários russos tem alguma ligação direta ou indireta com o esforço de guerra. Outros, mesmo fora desse circuito, dependem de relações estreitas com o governo para manter seus negócios.

Lealdade comprada e poder concentrado

O vazio deixado pela saída de empresas estrangeiras foi ocupado por empresários alinhados ao Kremlin, autorizados a comprar ativos lucrativos a preços baixos. Esse processo criou uma nova elite econômica, dependente da continuidade do conflito e do confronto com o Ocidente.

Ao fim, Putin conseguiu o que parecia improvável. Manteve o controle absoluto sobre os mais ricos do país, neutralizou qualquer dissidência relevante e transformou sanções externas em ferramenta interna de poder. A Rússia pode até ter mais bilionários, mas a influência política deles nunca foi tão pequena.

Fonte: Clique aqui

Créditos do autor:

Créditos da imagem: Reprodução/Divulgação