Por que o petróleo da Venezuela é tão importante para os EUA

A ofensiva dos Estados Unidos contra Caracas e a captura de Nicolás Maduro recolocaram a Venezuela no centro do tabuleiro geopolítico. Por trás do discurso sobre “transição segura” e reconstrução institucional, um fator aparece como motor real da movimentação americana, o petróleo, principal riqueza do país sul-americano e peça estratégica para a indústria energética dos EUA.

Logo após a operação, o presidente Donald Trump deixou claro o interesse direto no setor petrolífero venezuelano, ao afirmar que grandes empresas americanas seriam chamadas para recuperar a infraestrutura degradada e retomar a produção em larga escala. A fala expôs que a crise política se conecta, de forma direta, ao controle de um ativo considerado vital para a segurança energética dos Estados Unidos.

Uma economia refém do petróleo

A Venezuela construiu sua economia quase exclusivamente sobre o petróleo. Durante anos, a commodity respondeu por cerca de 90% das receitas de exportação do país e sustentou financeiramente o regime chavista mesmo sob sanções internacionais severas e isolamento diplomático.

O paradoxo é evidente. Embora detenha as maiores reservas comprovadas de petróleo do planeta, superiores a 300 bilhões de barris, a Venezuela produz hoje menos de 1% do petróleo mundial. Na década de 1960, essa participação superava 10%. O colapso é resultado de décadas de má gestão, corrupção estrutural na estatal PDVSA, fuga de investimentos e interferência política direta no setor.

A produção despencou mais de 70% desde o fim dos anos 1990, empurrando o país para a 21ª posição entre os maiores produtores globais. Acidentes recorrentes, refinarias sucateadas e sanções impostas pelos EUA agravaram ainda mais o cenário, limitando a capacidade de recuperação.

O tipo de petróleo que interessa aos EUA

Apesar de serem o maior produtor mundial de petróleo, os Estados Unidos não produzem majoritariamente o tipo de óleo que suas refinarias precisam. A produção americana é concentrada no petróleo leve, enquanto muitas refinarias, especialmente no Golfo do México, foram projetadas para processar petróleo pesado, mais viscoso.

Esse é o ponto central. O petróleo venezuelano é pesado e, historicamente, foi essencial para abastecer a indústria de refino americana. Sem ele, os EUA passaram a importar volumes relevantes de países como Canadá e México, ao mesmo tempo em que exportam parte do petróleo leve que produzem internamente.

Ter acesso direto novamente ao óleo pesado da Venezuela reduziria custos, aumentaria a eficiência das refinarias e reforçaria a segurança energética americana. É por isso que, mesmo autossuficientes em produção, os EUA continuam dependentes de petróleo estrangeiro específico.

Gigantes americanas 

Ao longo do século 20, empresas americanas dominaram o setor petrolífero venezuelano. ExxonMobil e ConocoPhillips tiveram ativos expropriados durante o governo de Hugo Chávez, acumulando indenizações bilionárias jamais pagas pelo Estado venezuelano. Esse histórico alimenta o discurso de Trump sobre “petróleo roubado” e reforça o argumento político para uma retomada do controle econômico.

Hoje, a Chevron é a única grande petroleira dos EUA ainda operando no país, graças a licenças especiais concedidas nos últimos anos. Qualquer abertura mais ampla do setor tende a beneficiar diretamente a companhia, mas também pode abrir espaço para o retorno de antigas operadoras, caso o ambiente político e jurídico seja remodelado.

Obstáculos e riscos no caminho

Apesar do interesse explícito, o plano americano enfrenta entraves relevantes. A infraestrutura petrolífera venezuelana está degradada e exige investimentos bilionários para voltar a operar em níveis significativos. Além disso, não está claro se o governo interino aceitará, de fato, uma reconfiguração profunda da PDVSA sob influência direta de Washington.

Há ainda o fator mercado. O mundo vive um cenário de excesso de oferta, com preços em queda e perspectiva de menor demanda nos próximos anos. Um aumento gradual da produção venezuelana pode pressionar ainda mais um mercado já saturado, tornando o retorno financeiro menos imediato do que o discurso político sugere.

A sombra da China

Outro elemento sensível é a presença chinesa. Pequim se tornou um dos principais destinos do petróleo venezuelano e mantém parcerias estratégicas com a PDVSA. A captura de Maduro foi duramente criticada pela China, que vê na Venezuela não apenas um fornecedor de energia, mas um aliado geopolítico na disputa global de influência.

No fim, o petróleo ajuda a explicar por que a Venezuela voltou a ser prioridade em Washington. Mais do que democracia ou transição política, está em jogo o controle de um recurso estratégico, capaz de redefinir alianças, influenciar mercados e reposicionar os Estados Unidos no mapa energético do continente.

Fonte: Clique aqui

Créditos do autor:

Créditos da imagem: Reprodução/Divulgação